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Crítica – Meia Noite em Paris (Midnight in Paris)

por em 22/06/2011 às 16:35

Cinema, Críticas


Paris é uma cidade que defino como “duas faces”, e neste quesito, a mais conhecida do mundo: sua vida noturna, guia e eterna inspiração de algumas das principais mentes brilhantes existentes em todos os vértices artísticos da história, contrasta-se com a bela e romântica luz do dia, embalando os corações apaixonados nas mesmas ruas e monumentos palcos da boemia da noite anterior. Dessa forma, com essas duas visões da cidade, conseguimos imaginar o número de diferentes pessoas que ela atrai: desde casais em busca da realização do que será a memória de suas vidas, passando por tipos da alta classe em suas típicas viagens, àqueles que buscam a inspiração para o ponto marcante de suas carreiras. Seja qual for o motivo resultante de sua presença na cidade, Paris age como um núcleo no qual desenvolvem-se algumas das mais incríveis histórias. E uma destas é a retratada no novo filme de Woody Allen.

No enredo encontramos Gil (um irreconhecível Owen Wilson), roteirista cinematográfico que está acompanhando os sogros e a noiva Inez (aqui insuportável, Rachel McAdams) em uma viagem à Paris. Buscando finalizar seu primeiro romance, objetivo não levado a sério por ninguém além dele, ele questiona a possibilidade de morar na cidade que foi palco de sua “Era de Ouro’ (década de 20) lidando com o orgulho ‘burguês’ e materialista da noiva, além da incômoda (e constante) presença do “amigo-professor-pedante” idolatrado por ela. Porém, quando prestes a sucumbir ao ritmo monótono que a viagem começa a tomar, após escolher não acompanhar os “agradáveis” amigos e Inez em um programa noturno, o protagonista acaba perdido à meia-noite, pegando carona em um carro que leva-o a realizar sua maior ambição: viver na sua considerada Idade de Ouro. E, como se isso não bastasse, em meio às festas e confraternizações, conhece ídolos literários (como Hemingway e Gertrude Stein), e alguns dos grandes nomes da pintura (Dalí), música (Cole Porter) e cinema (Buñel) – assim como a ‘musa’ de Pablo Picasso e Modigliani, Adriana – interpretada de forma majestosa pela belíssima Marion Cotillard.

Conhecido por suas (anuais e) excêntricas produções Allen supera-se apresentando ao espectador a história do roteirista e sua paixão pela capital francesa de sua habitual maneira hipocondríaca e esquizofrênica (um espelho de seu autor/diretor), mas despreocupada como a muito tempo não via-se, talvez um reflexo da mudança de ambiente, a transição Nova Iorque-Europa.

Com cortes iniciais sob pontos turísticos da cidade, rumando vagarosamente a locais ‘menos importantes’ que migram com o espectador para o interior da projeção situando-o no cotidiano das figuras em cena, Allen consegue abstrair nossa sensação de estar assistindo a um filme colocando-nos quase que como companheiros daqueles à nossa frente. Assim, passamos a acompanhar a situação de Gil, especialmente na década de 20, não somente através de seus olhos, mas com sua admiração.

Um dos pontos fortes da produção, é construção das Eras de Ouro  desenvolvidas com a mesma perfeição que as personagens baseadas nas respectivas épocas: enquanto os anos 20 nos passam o calor das festas com suas cores quentes e personalidades extravagantes, o fim do século XIX – retratado em uma cena que nos remete à algo semelhante ao conhecido Moulin Rouge, com sua cultura de divertimento cosmopolita incentivada, no contexto histórico, pelo desenvolvimento dos meios de comunicação – conta com tons mais escuros porém envolventes, passando-nos a ambientação do início da revolução na arte e tecnologia – aqui, a figura de Henri de Toulouse-Lautrec, mestre da Art Nouveau, acompanhado de Gaugin e Degas, passa-nos a importância que tal momento proporciona à Adriana, sentimento similar ao de Gil em relação aos anos 20. A presença dessas Eras, diferentes a cada personagem, age como gancho para uma consideração constante, presente em quase todos os filmes de Allen: a vida é insatisfatória (e suas variantes, como “A vida é curta, monótona e cheia de sofrimentos”, frase proferida em “Vicky Cristina Barcelona”).

Em resumo, Meia-Noite em Paris é mais uma análise psicológica do ser humano e sua falsa concepção do ideal, sua eterna busca por uma perfeição inalcançável. A diferença, é que nesta nova produção, a percepção de que sempre ambicionaremos algo avulso à nossa realidade (seja a Renascença, os anos 20, La Bella Epóque) enquanto esta, posteriormente, será alvo de desejo de outras gerações, é feita de maneira otimista provando ainda haver no genioso diretor/roteirista/derivados um resquício de amor e admiração por essa irreverente metamorfose que chamamos de vida.

Trailer

Apagar as Luzes

Ficha Técnica

Gênero:Comédia Romântica
Duração:1 hr 40 min
Ano de lançamento: 2011
Estúdio: Mediapro | Gravier Productions | Antena 3 Films
Distribuidora: Sony Pictures Classics
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Kurt Fuller, Owen Wilson, Marion Cotillard, Michael Sheen, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Rachel McAdams, Gad Elmaleh, Nina Arianda, Mimi Kennedy, Corey Stoll, Carla Bruni, Manu Payet
Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum e Jaume Roures
Fotografia: Darius Khondji
Direção de arte: Anne Seibel
Figurino: Sonia Grande
Edição: Alisa Lepselter

3 Comentários

  1. Comentário crítico que estimula que se veja o filme. Ótimo!

    1. Teeh Schwarz disse:

      Muito obrigada pelo apoio André! Grande abraço!

  2. Ana disse:

    gostei muito do filme. primeiro porque acho Paris uma das cidades mais bonitas que conheço, mas também porque este filme nos diz que para a maior parte dos humanos o presente é sempre insuficiente e achamos que outras épocas foram mais interessantes…mas no fundo tudo tem a ver com o facto de o ser humano estar sempre insatisfeito e em busca de algo…será que alguma vez seremos verdadeiramente felizes com o que temos???

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