Há vários anos o cinema brasileiro usa fórmulas falhas no núcleo do enredo de seus filmes. A necessidade de produzir algo que encaixe-se ou no contexto de pobreza e seu resultante, abusando assim dos cenários com favelas, morros e violência; ou então de ‘comédia’, sempre com sua excessiva apelação sexual e falta de conteúdo, prejudicou o valor do produto cinematográfico nacional e dos profissionais da área viciados nesse mecanismo de atração, perante seu público. Por esse motivo, somos incapazes de evitar que uma expectativa instale-se quando um filme se propõe a fugir da mesmice e arrisca-se como um thriller – mesmo que tal risco seja a causa de posteriores arrependimentos.
A inspiração do filme que marca a estréia de Marcos Paulo na direção para as grandes telas foi o gigantesco e pacífico assalto realizado no ano de 2005 ao Banco Central do Brasil. A peripécia daqueles bandidos, seus métodos de preparação, a forma como engrenaram a teia de fatores, as ações perfeccionistas, são todos itens que poderiam ter sido utilizados de forma eficaz, originando o filme brasileiro que esperamos até hoje – mas como eu disse: ‘poderiam’, não foram.
Extremamente mal constituído, Assalto ao Banco Central beira a tragédia em quase todos os aspectos: desde as péssimas atuações, passando pelo excesso de frases de efeito e à ridicularização de seu vilão do filme, tudo isso acompanhado de uma trilha sonora que parece ter perdido a noção da obra que acompanha.
O roteiro, assinado por Renê Belmonte e Lúcio Manfredi, nos promete inicialmente algo que possamos acompanhar com prazer: frases de efeito, personagens intrigantes, tudo foi preparado para prender a atenção do espectador ao máximo na trama – coisa que aconteceria se todos os itens de apreciação não ficassem marcados pelo excesso no decorrer da produção. Primeiramente, as personagens nos são apresentadas como perigosos ladrões coordenados por uma dupla extremamente inteligente (os personagens de Daniel Filho e Milham Cortaz, ‘o Barão’) e, obviamente, não há tempo útil para uma explicação detalhada do passado de cada um dos integrantes do ‘bando’. Deduz-se então que pequenos ‘flashbacks’, ou comentários entre as personagens, surgirão para posicionar o espectador perante tal periculosidade correto? Não. Imagino se o que passou pela cabeça dos responsáveis foi: “se não há tempo, descartemos o passado e deixemos os ‘fora-da-lei’ agirem de forma constrangedora para auxiliar a primeira parte do filme à imergir” – se essa realmente era a intenção, eles conseguiram.
Em segundo lugar, encontramos as frases de efeito que, se ao início soavam engraçadas e familiares aos nossos ouvidos, tomam rumo contrário após as…nove primeiras utilizações? É simplesmente revoltante que ninguém tenha se preocupado com o fato de que a cada ditado popular utilizado não só o espectador fica revoltado mas o filme torna-se mais desagradável, tornando a clara tentativa de levá-lo ao nível de um Tropa de Elite, com suas tiradas cômicas em meio a tensão e bordões reconhecidos pelo público – outro defeito impossível de ser ignorado.
Mas o roteiro não é a maior tragédia do filme visto que ainda precisamos considerar os efeitos sonoros – e o que carrega a produção rumo ao abismo é incontestavelmente sua trilha sonora. Parecendo ter sido composta por alguém parcialmente surdo e sem concepção da realidade retratada no filme, a trilha sonora não faz idéia do que acompanha, em que pontos deve emocionar ou não. Desde os sons diegéticos à utilização de temas eclesiásticos quando uma caricata personagem parece negociar com Deus, esta surpreende de forma negativa com sua completa alienação.
Outro ponto que parece ter sofrido dos mesmos males é a ‘construção’ da obra que, com sua montagem intrigante sucumbindo ao desastre gradativamente, acompanhada de fades desnecessários e cortes repentinos de tempo e espaço, gera uma narrativa não-linear idêntica à de O Plano Perfeito - sem perceber que Spike Lee ao menos contava com efeitos bem empregados, trilha sonora excepcional e ótimas atuações.
Isso nos leva à outro foco de discussão: as atuações. O elenco conta com nomes batidos das novelas e produções nacionais, caras conhecidas, que tornariam fácil a identificação do público não fosse a péssima construção das personagens. Cortaz, como o Barão, é um dos poucos que conta com momentos de apreciação, acompanhado somente por Giulia Gam e sua encenação com mais instabilidades que o humor de alguém com transtorno bipolar, e o veterano Lima Duarte, responsável por nosso entretenimento com sua simpatia e aparente diversão ao interpretar um Delegado genial e bonachão. Os atores Fábio Lago – que contou com desempenho formidável no já citado Tropa de Elite, Gero Camilo, Tonico Pereira, Milton Gonçalves e Vinícius de Oliveira – com a pior e mais estereotipada personagem, perpetuam-se na trama como ganchos para momentos que buscam risadas em meio à uma tensão que só existe na teoria, originando assim caracteres forçados e constrangedores. Eriberto Leão e Hermila Guedes, vistos em outras produções com atuações mais que respeitáveis, empregam nessa produção interpretações cansativas que, unidas ao marasmo do triângulo amoroso com Barão – sustentado por momentos desnecessários como a cena de sexo entre Mineiro e Carla e a “briga” mal filmada entre Barão e Mineiro – são desconfortáveis e beiram o ridículo.
Trailer
Ficha Técnica
Título original:Assalto ao Banco Central
Gênero:Ação
Duração:1 hr 44 min
Ano de lançamento: 2011
Estúdio: Total Entertainment
Distribuidora: Fox Filmes do Brasil
Direção: Marcos Paulo
Roteiro: Renê Belmonte, com colaboração de Lúcio Manfredi e pesquisa de Taís Moreno, baseado em argumento de Antônia Fontenelle
Elenco: Vinícius de Oliveira, Hermila Guedes, Giulia Gam, Milhem Cortaz, Lima Duarte
Produção: Marcos Didonet, Walkiria Barbosa e Vilma Lustosa
Música: André Moraes
Fotografia: José Roberto Eliezer
Direção de arte: Alexandre Meyer
Figurino: Marília Carneiro e Antônio Araújo






























“Onze homens e um segredo” de pobre! Lamentável!
O filme inicia com uma cena de sexo sem sentido, desnecessária (como a ‘segunda’), a primeira coisa que eu disse foi: Já começou ruim, por que ‘todo’ filme brasileiro tem que ter cena de sexo sem necessidade? será que não podem apenas insinuar e cortar para a manhã seguinte?
Realmente, um tema que tinha tudo para ser um bom filme, inclusive com mais detalhes fica no marasmo.