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Crítica: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Podemos considerar uma raridade filmes que, extraídos das empoeiradas páginas dos livros, nos levam de encontro à sua obra de origem por pura e espontânea vontade. Seja por que normalmente nos deparamos com detalhes necessários sendo ignorados ou mesmo por que cenas adicionais surgem do além, prendendo narrativas tensas e geniais em filmes que mereciam o esquecimento, os exemplares literários nunca conseguem ser superados ou mesmo contar com adaptações fiéis o suficiente para não nos desapontar. Pois bem, David Fincher e seu novo filme conseguem derrubar quaisquer barreiras e sanar preconceitos inimagináveis do maior “rato de biblioteca” existente. Se era com o característico desânimo que você pretendia entrar na sala do cinema para assistir à “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres“, meu único conselho é: mude drasticamente sua atitude pois você estará frente a uma obra-prima. Julgo ser impossível que qualquer ser humano letrado saia de uma sessão deste filme sem, imediatamente, estar inebriado pela vontade, tomado pela certeza de que lerá a trilogia de Stieg Larsson.

No início da narrativa, situada na fria Suécia, conhecemos Mikael Blomkvist, jornalista levado praticamente à falência ao ser processado por um poderoso empresário difamado por uma matéria sua. Evitando prejudicar o veículo para o qual escreve, a revista “Millennium”, ele decide manter-se afastado de toda a polêmica por um período aceitando uma proposta: unir-se à Henrik Vanger para tentar solucionar um possível crime ocorrido há mais de 40 anos. Em 1966 a sobrinha do milionário, Harriet Vanger, desapareceu sem deixar rastros, mistério que cerca e perturba até hoje a disfuncional família composta por segredos, antissemitas e desavenças. Para desvendar e compreender o ocorrido, Mikael acaba precisando do auxílio de Lisbeth Salander, uma hacker problemática e com um passado igualmente característico que a mantém sob supervisão do Estado.

Baseado no primeiro volume da trilogia, anteriormente citada, o filme conta com ingredientes indispensáveis a qualquer obra de suspense e que, embora soem como clichês em outras obras, funcionam perfeitamente devido à maestria com que são explorados. Exímio diretor que é, David Fincher, em união há uma equipe extremamente competente, conseguiu fazer com que todas as “partes” formassem um “todo” harmonioso, sem deslizes ou pecados, aventuro-me a dizer: perfeito. Logo nos créditos iniciais, o cover de uma das melhores músicas de Led Zepplin ecoa ritmando uma conturbada e obscura phantasmagoria que nos apresenta, de forma genial, a origem e futuro da protagonista (“Nós viemos da terra / Do gelo e da neve (…) reconstruir suas ruínas / Por paz e confiança pode-se ganhar o dia / Apesar de todas suas perdas”), contagiando e obrigando todo e qualquer espectador a imergir naquele misto de pesadelo e deslumbre que será apresentado.

Grande parte da tensão do longa é sustentada pela fotografia de Jeff Cronenweth que, intensificando a tensão e austeridade de cada ambiente, é expressiva ao delinear locais extremamente diferentes mas igualmente aterrorizadores. Seja na imensidão branca que destaca a fragilidade e exposição das personagens na ilha ou na elegante mas opressiva capital, não encontramos a sensação de conforto ou segurança, efeito que é ainda mais impactante devido ao contraste gerado por este chiaroescuro empregado nas mudanças de cena. Agora, a fotografia só consegue obter o desejado devido ao auxílio da esplêndida trilha sonora, coordenada por Trent Reznor e Atticus Ross, e do design de som de Ren Klyce que, extremamente precisos, prolongam a ação das cenas sobre o espectador com sua estridência, frieza e sobriedade.

Outro campo que exibe maestria e equilíbrio é a montagem que, desenvolvendo diversas histórias paralelamente – a de Mikael, a de Lisbeth e a dos dois – intercala-as com naturalidade permitindo, ainda, que as personagens desenvolvam-se sem problemas. Plummer, no papel de Henrik, reflete ao mesmo tempo sua experiência e debilidade, posição necessita perante o papel de Skarsgård, intérprete de Martin, um homem preciso e determinado que, embora mostre-se constantemente preocupado e prestativo, tem em seu olhar a agressividade e rigidez de alguém que procura estar sempre no comando de tudo à sua volta, contrastando com a persona de um Mikael acuado, angustiado e parcialmente indefeso, mas que se impõe quando levado às ações por sua curiosidade audaz.

E se as atuações de Daniel Craig e companhia surpreendem por sua simplicidade, o maior diferencial da de Rooney Mara é o comprometimento e versatilidade.
É à Mara e sua intimidadora Lisbeth Salander que pertence o filme, sendo impossível negar que nosso foco estaciona na bela atriz durante a projeção inteira. O desenvolvimento da inteligente e inquieta Salander expõe de forma humana e sutil como um visual duvidoso composto por inúmeros piercings e tatuagens, extrema hostlidade e desacato serve de proteção à um emocional não exercitado, um psicológico sofrido e uma cativante, frágil, imprevisível e submissa criatura que beira o sociopatismo mas, em alguns momentos, faz com que trabalhemos a mais pura piedade em seu favor.

Dessa forma, “Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres” mostra-se o exercício da excelência, envolvente, uma obra inteligente, intrigante e realizada com invejável competência, conseguindo fazer com que o espectador identifique-se com a mais antissocial das criaturas e passe quase três horas no cinema com a percepção de ter estado ali por cerca de míseros vinte minutos. É um filme indispensável para qualquer amante do cinema, para qualquer amante da literatura, do raciocínio, para qual ser humano.

Trailer

Ficha Técnica

Título original:The Girl with the Dragon Tattoo
Gênero:Suspense
Duração:2 hr 38 min
Ano de lançamento: 2012
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) | Scott Rudin Productions | Film Rites | Yellow Bird Films
Distribuidora: Columbia Pictures (EUA) | Sony Pictures Releasing (Brasil)
Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian, baseado no livro de Stieg Larsson
Elenco: Daniel Craig, Stellan Skarsgård, Rooney Mara, Robin Wright, Christopher Plummer, Embeth Davidtz, Joel Kinnaman, Joely Richardson, Goran Visnjic, Julian Sands.
Produção: Scott Rudin, Ceán Chaffin, Søren Stærmose e Ole Søndberg
Música: Trent Reznor e Atticus Ross
Fotografia: Jeff Cronenweth
Direção de arte: Frida Arvidsson, Linda Jansson, Pernilla Olsson, Tom Reta, Kajsa Severin e Mikael Varhelyi
Figurino: Trish Summerville
Edição: Kirk Baxter e Angus Wall
Efeitos especiais:Digital Domain / Method Studios

2 Comentários

  1. Assisti esse filme originalmente em 2010. A história, e seu enredo são sensacionais. A “Lisbeth” do filme sueco fez uma atuação maravilhosa. Tanto que ganhou um excelente papel em Sherlock Holmes. Quero assistir esse filme mas fico com o pé atrás. Pra mim, Daniel Craig é só um fortão que faz biquinho em seus filmes.

    1. Teeh Schwarz disse:

      Pode ir sem medo Carlos: a atuação de Daniel Craig não nos lembra em um segundo sequer a do grande espião britânico. Se há uma personagem que pode tirar esse esteriótipo do ator, Mikael é ela. Abraços!

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