Cinema

Crítica | Cisne Negro

Crítica | Cisne Negro

Crítica

O LAGO DOS CISNES, espetáculo de balé guiado ao som da fantástica música de Tchaikovsky, conta uma história conhecida, mesmo que parcialmente, por todos nós: gêmea inocente e dócil apaixona-se e têm o alvo de sua paixão seduzido por sua irmã envolvente e sensual; como alcance à libertação da dor causada, a mesma provoca a morte encontrando nesta seu escape. Tal enredo é familiar, e devido à isso nada surpreendente, ou ao menos era essa a ideia que tínhamos até o roteiro de CISNE NEGRO cair nas mãos de Darren Aronofsky, diretor conhecido por trabalhar com o lado humano de seus protagonistas, explorando no âmago suas deficiências (vide Réquiem para um Sonho, Pi e O Lutador ). Foi assim que uma grande ideia tornou-se uma realização genial, e é através desta genialidade que CISNE NEGRO, filme que estreou nesta sexta-feira (4/2) no Brasil, nos apresenta a história de Nina Sayers, uma jovem e dedicada bailarina.

Após a forçada saída da antiga ‘prima ballerina’ Beth da companhia à qual Nina pertence, surge a necessidade de uma nova intérprete à Odette e Odile, o Cisne Branco e Negro respectivamente, na apresentação de O LAGO DOS CISNES coordenada por Thomas Leroy. Este papel torna-se o objetivo de grande parte das integrantes da companhia, inclusive da dedicada Nina, que obtém surpreendente sucesso na interpretação da pura e virginal Odette, porém sofre com gigantescos obstáculos quando necessita encarnar a sensual Odile (exemplo disso é a cena do ensaio quando Leroy, após fazer o papel de príncipe e beijá-la, lança-lhe sem dó a frase: Isto fui eu seduzindo você…). Para permitir-se transportar através da segunda personagem, a bailarina tem por necessidade explorar sua sexualidade, fugir da zona de infantilização imposta por sua mãe, e ainda lutar com a paranóia que a toma devido à intensidade e desgaste de seus esforços físicos e mentais.

Através de uma imersão ao psicológico falho da personagem, e a forma com que os reflexos constantemente são dispostos (visto que a personagem está sempre cercada por eles através de espelhos e demais artefatos) confundindo-se inúmeras vezes com reproduções de um alter ego negativo gerado pela mente de Nina e personificado através da imagem de Lilly, uma nova e sedutora bailarina que torna-se sua rival pela perfeita e natural interpretação de Odile, desnorteiam e conseguem passar as emoções que a mesma origina, não nos permitindo diferenciar por muitas vezes que partes daquele todo são fruto da mente da protagonista e que partes são verdadeiras. Essa é uma das formas com as quais Aronofsky nos leva ao exterior de nossa zona de conforto, explorando as paranoias e alucinações de Nina de forma a nos permitir confundir tais momentos com a realidade, oque gera uma sensação de intensa aflição e desconforto ao mesmo tempo em que perpetua-nos a dúvida. Algo que auxilia nesse processo de tornar o ambiente do enredo dúbio, como uma demonstração do interior da confusa Nina, é a fotografia que abusa das sombras (como na cena do Cisne Negro, em que a sombra projetada remete à imagem das asas de um Cisne conforme Nina entrega-se pela primeira vez à sua caracterização) e, em uma perspectiva tonal (chiaroscuro), equilibra os momentos de emoção da personagem com o ambiente em que essa se encontra, dando continuidade à ambiguidade da história, à confusão ‘realidade x imaginação’.

A finalização da produção com mesmo desfecho que o espetáculo, com o lado são de Nina sucumbindo ao obscuro e deixando-se ferir (pasmem) com um espelho, clara retratação da luta entre os opostos aparentes durante o decorrer da trama, seguida da afirmação da mesma (“Eu fui perfeita.”) mostra-nos a transformação pela qual a personagem permitiu-se passar, leva-nos a refletir sobre seus esforços, agressões corporais (muitas vezes em forma de ‘inocentes’ automutilações como os vergões encontrados em suas costas), e a constante introspecção, chegando a conclusão de que ela, provavelmente, tenha desenvolvido essa extrema fragilidade na busca pela superação de seus obstáculos, muito antes de ter decidido enfrentar suas fraquezas e medos aceitando o papel principal, oque torna a personagem ainda mais complexa. Uma forma perceptível de chegar à tal conclusão é o modo como é exposta sua relação com a mãe, que por ter desistido da carreira para gerar a filha, deposita nesta toda a carga de sua experiência e a pressão por manter-se sempre focada no balé, utilizando Nina como sua marionete pessoal, tendo esta sempre ao seu controle, sem privacidade, mantendo sua imagem como um ideal, seu comportamento como o de uma criança, e seu rendimento como uma compensação aos seus possíveis erros. O temor de Nina perante a imagem da mãe demonstrado na primeira sequência sob uma breve crítica, a forma como esta à enfrenta quando é tomada – de súbito – pela revolta, e a intensa troca de olhares, no take final, comprovam que mesmo não sentindo-se confortável com a situação, mãe e filha são extremamente dependentes uma da outra, outro empecilho na guerra entre a infantilização e a busca pela sensualidade.

Natalie Portman, a favorita do Oscar deste ano, encontrou em Nina seu Cisne, a personagem de sua vida. Com este papel, a atriz mostra que está preparada para quaisquer obstáculos e transformações que a carreira possa exigir, prova que consegue mostrar-se frágil e doce, mas também sabe utilizar o êxtase em seu lado sensual. A forma como entregou-se e mudou (literalmente, visto que foram necessárias aulas de balé e perda de peso para encarar este desafio) devido à esta experiência, é digna de uma eterna admiração. Milla Kunis também surpreende, na união entre a imagem de party girl e uma variação de femme fatale (porém com menos curvas também devido à perda de peso exigida pelo papel) extremamente envolvente e eficaz, comprovando a tese de a mesma está pronta para abrir mãos de sua imagem perpetuada através das séries de TV, e assim tornar-se outro grande trunfo dos estúdios cinematográficos.

Embora pequenos, os papéis de Winona Ryder (Beth) e Vincent Cassel (Thomas) são indispensáveis à narrativa, afinal é através da idolatração à personagem Beth e o atrito entre as bailarinas que Nina entra em questionamento, da mesma forma como, com as provocações de Thomas, permite-se explorar sua sexualidade e tentar libertar sua ‘mulher’ interior.

E é assim, entre plumas, música, atuações memoráveis e sentimentos intensos, que Darren Aronofsky mostra-se continuamente digno de confiança, fugindo da área dos dramas e provando que sua versatilidade consegue arcar com um suspense entregue à um forte psicológico. Assim como Nina, o diretor lutou muito, e juntos, ambos alcançaram aquilo que tanto ambicionavam: a perfeição.

*Crítica escrita originalmente dia 07 de fevereiro de 2011

Pôster

Sinopse

Apoiada pela mãe, uma bailarina aposentada, Nina (Natalie Portman), se dedica totalmente à companhia de dança de balé da qual faz parte. A grande oportunidade da jovem surge quando o diretor artístico Thomas Leroy (Vicent Cassel) procura por uma dançarina para protagonizar O Lago dos Cisnes. Lily (Mila Kunis) tem toda a aptidão para a sensualidade do Cisne Negro, enquanto Nina se mostra ideal para viver o Cisne Branco, inocente e gracioso. Nesta disputa, Nina passa a conhecer melhor o seu lado sombrio e este autoconhecimento pode ser destrutivo

* Crítica escrita originalmente em 07 de fevereiro de 2011

Ficha técnica

  Gênero: Drama
  Direção: Darren Aronofsky
  Roteiro: Andres Heinz
  Produção: Arnold Messer
  Fotografia: Matthew Libatique
  Trilha Sonora: Clint Mansell
  Duração: 108 min.
  Ano: 2010
  País: Estados Unidos
  Cor: Colorido
  Estreia: 04/02/2011 (Brasil)
  Distribuidora: Fox Film
  Estúdio: Fox Searchlight Pictures
  Classificação: 16 anos

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