Em parceria com assessoria em comunicação, Palavra e a Downtowfilmes conseguimos uma série de entrevista com a equipe do filme nacional “Malu de Bicicleta” longa baseado na obra homônima de Marcelo Rubens Paiva.
E o primeiro estrevistado é o diretor Flávio R. Tambellini. Este é seu terceiro longa-metragem como diretor. Assim como Bufo & Spallanzani e O Passageiro, Segredos de Adulto, baseados respectivamente nas obras de Rubem Fonseca e Cesário Melo Franco, o filme Malu de Bicicleta é inspirado em um livro de Marcelo Rubens Paiva.
Privilegiar a literatura brasileira foi coincidência ou é uma marca sua como diretor?
Flavio Ramos - É uma coincidência e uma marca. Eu não fiquei procurando um livro, mas o livro já vem com um material dramático, já v
em com desenho de personagens e isso ajuda a estruturar um roteiro. O Marcelo (Rubens Paiva) é uma pessoa muito ligada em cinema, ele vê muitos filmes e escreve meio cinematograficamente. O Rubem Fonseca também, apesar de os livros dele não serem de fácil adaptação. Já O Passageiro, Segredos de Adulto foi um caso diferente, porque o livro foi lançado depois do filme. Eu recebi o livro ainda no prelo e fiz o filme, e o filme mudou um pouco o livro também. Mas essa questão de adaptar obra literária é bacana pela estrutura dramática que você tem num bom livro. E pelo desenho de personagens. Eu tenho até um próximo projeto que não é baseado em livro, mas acho muito bom adaptá-los, sempre com 7 liberdade. Eu trabalho junto com os autores, respeitando a essência dos personagens.
Malu de Bicicleta mostra a complexidade de uma relação amorosa. O tema é denso, mas o filme equilibra humor e drama o tempo todo. Como você pensou nesta equação? O livro já dosava bem o humor e o drama ou isso foi uma característica específica do roteiro?
Flavio Ramos - É uma característica mais do roteiro. O Marcelo
(Serrado) tem humor, mas ele pode ir para o lado mais amargo. Eu optei pelo humor, não pelo humor da comédia fácil, mas pelo o humor da situação. Claro que temos os conflitos do personagem, o filme não é uma comédia no sentido literal. Há algumas cenas engraçadas porque, às vezes, o cotidiano é engraçado, a situação que você está é engraçada, então essa foi a busca. Eu não quis fazer um filme que buscasse o humor a todo custo. Quando o primeiro roteiro chegou a mim, puxava muito mais para o lado engraçado. Eu estava buscando mais a observação do comportamento humano. Acho que conseguimos esse equilíbrio entre humor e drama do dia-a-dia, não existe tragédia.
Ao mesmo tempo em que se equilibra humor e drama, o filme mostra também a diferença entre um Rio de Janeiro solar e praiano e uma São Paulo cinza e urbana, cada uma com sua beleza. Há também uma espécie de bipolaridade no personagem do Marcelo Serrado (Luiz Mario), que vai da euforia ao fundo do poço.
Retratar os extremos foi intencional?
Foi proposital. Num determinado momento o filme tinha muito essa
coisa Rio/SP, mas comecei a achar que isso poderia estar mais sutil. Mas, claro, o Rio é solar. A Malu – isso não tem no livro, fui eu que coloquei –, gosta de jogar futebol, de brincar e é alegre. E em São Paulo o ambiente é mais de trabalho, de balada, e chove. Pedi para o fotógrafo fazer uma cor mais quente no Rio. Eu moro no Rio, mas nasci em São Paulo, são cidades de belezas diferentes. De certa maneira o Rio representa certa liberdade, não é moral. E São Paulo tem uma coisa mais da noite, da balada, dos segredos de alcova. Seus dois primeiros filmes valorizam muito as paisagens do Rio.
Malu de Bicicleta tem muitas externas e também privilegia a beleza natural da cidade, mas faz um contraponto com a arquitetura urbana de São Paulo. Como foi a escolha das locações?
Para mim não existe filme sem a história estar ligada às locações. É um
trabalho fundamental escolher as locações a dedo, e que cada uma tenha algum sentimento em relação ao personagem da história. Gosto de trabalhar o Rio de Janeiro. É um clichê isso, mas o Rio é muito cinematográfico. O que acontece é que as pessoas focam muito no Rio dos extremos, como a favela ou o cartão postal, mas a cidade tem muita locação rica, bonita e interessante cinematograficamente.
Quais são as locações mais interessantes?
Fomos para o alto da Pedra da Gávea, acho que ninguém nunca filmou lá. É uma pirambeira, mas esse filme pedia isso. Subiram cerca de 20 pessoas da equipe com câmera e equipamentos. Foi cansativo. Teve uma locação no Rio, 8 onde filmamos o apartamento do Luiz (personagem do Marcelo Serrado), que é como se estivéssemos em São Paulo. Esse apartamento, que fica em Ipanema, é o único na cidade que foi projetado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos maiores nomes da arquitetura no Brasil. A gente teve que filmar mais no Rio, até por uma questão de agenda dos atores. Foram três semanas no Rio e uma em São Paulo. Mas o que foi feito no interior dos espaços tem bastante a cara de São Paulo. Fizemos um ótimo trabalho de direção de arte. Gosto também de filmar em lugares que eu conheço, de registrar lugares que tenho intimidade. Filmamos no Leblon, no aeroporto Santos Dumont, no bar Azul Marinho, no Arpoador. Em São Paulo filmamos na Praça Pôr do Sol, no Mercado Municipal, na Avenida Paulista, no Monumento aos Bandeirantes. Como era preciso estabelecer muito essa relação Rio/SP, tínhamos que optar por locações mais emblemáticas.
Houve filmagens em estúdio?
Não teve estúdio. Filmamos basicamente no Galpão Ação da Cidadania, que serviu para as locações da boate e do escritório do Luiz (personagem de Marcelo Serrado). Utilizamos esse espaço como se fosse um estúdio. E filmamos muito dentro do apartamento em Ipanema. Então consideramos esses lugares quase como estúdio. Filmamos também dentro da minha produtora. Várias locações foram construídas lá dentro, como o quarto da vizinha do Luiz Mario, a sala do detetive e outros.
Como surgiu a ideia deste projeto?
O projeto veio através do Marcelo (Serrado). Eu gosto muito do Marcelo, acho que ele é um ator com um ótimo tempo cômico. Ele tem esse lado meio produtor, de estar buscando os projetos, e me trouxe o livro. De cara eu estava com outras ideias e tive uma dificuldade inicial de entrar no projeto. Mas foi crescendo a partir do momento em que fui trabalhando o roteiro. Trabalhei como Bruno Mazzeo, com o João Avelino, e voltei a trabalhar com o Marcelo (Rubens Paiva).
Quais as principais diferenças entre o livro e o roteiro do filme?
No Malu filme, a gente enxugou o livro, pegou mesmo a essência da história. O livro é cheio de memórias dos personagens que não cabiam no filme. Eu não queria fazer um filme de flashbacks, de psicologismos. O que me interessou no livro foi uma história contemporânea, sobre a incapacidade da comunicação na época da internet, da comunicação virtual. O medo de gostar, as relações, isso me interessou.
E como foi a escolha do elenco?
Quando o Marcelo (Serrado) trouxe o projeto, logo pensei nele como protagonista e hoje, assistindo ao filme, percebo que não pensaria em outro ator para o papel. A produtora de elenco Ciça Castello me falou sobre a Fernanda de Freitas. Eu a vi numa peça de teatro (A Ver Estrelas, de João Falcão). Ela é uma batalhadora, veio do interior de São Paulo e é muito talentosa.Testei várias atrizes, mas ela tinha uma coisa do interior que eu curti. É uma menina que cresce na tela. Houve uma química ótima entre ela e o Serrado. Eles ensaiaram 9 muito, ficaram amigos. Ela é muito meiga e ao mesmo tempo engraçada, e isso ajudou a quebrar o Marcelo (Serrado). Eu não queria que ele ficasse galã. O resto do elenco foi se formando. A Marjorie Estiano me procurou. Eu já a admirava, a via nas novelas e a achava boa atriz. Não é um elenco óbvio com duas mulheres estonteantes, mas sim duas meninas que combinam. Trabalhei muito com atores de teatro, como o Thelmo Fernandes, o Marcos Cesana, o Otávio Martins, a Maria Manoella e a Daniela Galli. Acredito em atores de teatro misturados com pessoas de cinema.
Como se deu a preparação do elenco? Como você atua na direção de atores?
É na relação com o ator que eu me motivo para fazer um filme. Isso desde o Bufo & Spallanzani, que foi meu primeiro filme. Ali, com o Tony Ramos, José Mayer, eu vi que se você tem uma relação forte, se é compreendido pelos atores, você está com o filme na mão. Eu não acredito muito nesses ensaios exaustivos,
nem em preparações longas com ator, acredito muito na compreensão do personagem, de você conversar e depois ensaiar. A gente fazia leituras e ensaiava cenas, mas não ensaiamos nos locais de filmagem. A gente ensaiou bastante, principalmente o Marcelo (Serrado) com a Fernanda (de Freitas), mas era muito mais um ensaio da compreensão de como era o clima filme, do que um laboratório.
Você produziu grandes filmes brasileiros, como por exemplo A Ostra e o Vento, Carandiru e Terra Estrangeira. Qual a influência da sua experiência como produtor na realização de seus filmes como diretor?
Não tenho a cultura do desperdício. Não no sentido financeiro, mas de saber exatamente o que levar para tela. Estou cansado de ver dias de filmagens jogados fora por teimosia ou insegurança. Eu sabia que tinha que fazer esse filme rápido. Entendi onde eu deveria focar e que valores de produção eu deveria colocar no filme. Eu sabia que o apartamento tinha que ser bacana, assim como o espaço da boate. Por isso nós investimos nessas locações.
Acredito que em certos filmes você tem que saber escolher onde deve investir. Tem filme que é de figuração, tem filme em que você investe nas cenas grandes, outros são de época. Malu é um filme basicamente de atores, mas no qual as locações deveriam dar credibilidade. Isso é uma visão de produtor, porque eu sei o que fica na tela depois. Eu sei que o que fica na tela é o que a lente vê.
Qual é o orçamento do filme?
Cada vez mais eu acredito que ou você faz um filme com muitos recursos, mas caro, ou você tenta fazer um filme mais barato. Os filmes de médio orçamento não fazem tanta diferença. No caso de Malu, eu e a equipe queríamos mostrar que dava para fazer um filme com qualidade, mas sem muito dinheiro. Fizemos com R$ 1,3 milhão, que para o tamanho do filme é muito pouco. Filmamos em quatro semanas, com uma câmera de alta tecnologia digital com lente de cinema, e depois passamos o filme para película. O acabamento é de primeira. Esse filme teve a parceria da Downtown Filmes desde o início. Nós começamos a filmar já com uma distribuidora, o que faz toda a diferença. Eu já tive filmes mais caros em que isso não existiu. Esse foi todo estruturado. É um filme, por exemplo, que o Canal Brasil já comprou no roteiro. Eu nunca tinha feito um 10 filme com uma equação tão bem desenhada. Não é um filme de lançamento grande, mas está todo amarrado.
Qual o conceito da trilha sonora, assinada por Dado Villa-Lobos?
A trilha do Dado é um dos pontos altos. O primeiro longa da vida dele foi comigo (Bufo & Spallanzani), ele nunca tinha feito trilha antes. A gente fez um trabalho forte no Bufo e as pessoas gostaram. No meu filme seguinte, por uma série de questões, fiz a trilha com o Berna e o Kassin. Mas eu queria voltar a trabalhar com o Dado. Agora eu trabalhei com outro Dado, mais trilheiro de cinema, sempre pensando no clima do filme, então foi muito legal. Ele estava acompanhado de músicos ótimos, como o Carlos Laufer, e nos brindou com uma canção original que o Fausto Fawcett fez em cima da história do filme.
Tem alguma música no filme que não seja da trilha original?
Sim. Temos uma canção italiana (Parlamo de Amore), que Marcelo Serrado canta, e uma antiga do Dado Villa-Lobos cantada pela Paula Toller. Tem uma música da banda do meu filho, Experiência de Lucy, e tem uma canção do Quito Ribeiro, que é um dos editores do filme e também é compositor e cantor.
Qual é a importância da trilha sonora no filme?
Pode parecer óbvio, mas a trilha serve ao filme. Eu queria fazer a trilha com um lado dance/house que é São Paulo, com o clima da noite paulista, bem eletrônica e dançante. Tem um lado romântico, que é a história dos dois (Marcelo Serrado e Fernanda de Freitas) e também o lado misterioso, que é uma trilha onde ele tem os acessos de ciúmes e de loucura. Por isso que eu digo que é uma trilha, fiz bem trilha mesmo.