Cinema

Crítica- Educação (An Education)

No mês do dia internacional da mulher (ontem) , em temporada de Oscar, “Educação”, de Lone Scherfig, representa uma opção segura de filmes que são, sobretudo, “competentes”. Indicado na categoria de melhor filme, na qual, de longe, não figura entre os mais cotados, esse primeiro longa em língua inglesa da diretora dinamarquesa também recebeu outras duas indicações da Academia. Nick Hornby, autor de “Alta Fidelidade”, romance já adaptado para o cinema, estréia em grande estilo com uma indicação a melhor roteiro adaptado ao lado de “Distrito 9”, “Preciosa” e “Amor Sem Escalas”, tido como favorito. Já Carrey Mulligan, que vem colecionando prêmios em diversos festivais, concorreu como melhor atriz ao lado de veteranas como Helen Mirren, que levou a mesma estatueta em 2006 por “A Rainha”, e Meryl Streep, premiada nessa categoria em 1982 por “A Escolha de Sofia” e na de atriz coadjuvante por “Kramer VS. Kramer” em 1979, e com a vencedora, Sandra Bullock.

Em meio a diversas figuras femininas cujas caracterizações flertam com o clichê, Jenny (Mulligan), uma estudante inteligente e questionadora de 16 anos, vê a possibilidade de sair da bolha em que vive no subúrbio londrino de 1961 ao conhecer David (Peter Sasgaard), um homem mais velho que lhe apresenta o mundo que sempre idealizou. Entre diversas primeiras experiências, a garota conhece o mundo da música, da pintura e do luxo da alta sociedade, se transmutando, visualmente, em idas e vindas, em uma Holly Golightly (Audrey Hepburn) de “Bonequinha de Luxo” (1961). Representando um caminho aparentemente sem volta, essa iniciação ao universo adulto a faz questionar o real sentido de uma educação superior. Tornar-se uma professora, funcionária pública ou dona de casa e esposa, de repente, lhe parecem fins esdrúxulos e tediosos do sonho de seu pai Jack (Alfred Molina) para si: entrar em Oxford para estudar literatura inglesa.
Se é constatável que nem Molina nem Emma Thompson (no papel de diretora conformista) conseguem alçar seus personagens do estereótipo, o fato de “Educação” ser uma adaptação das memórias de Lynn Barber o salva de cair em um dos ismos mais sedutores e potencialmente depreciativos para a narrativa. Felizmente, a composição da protagonista não desliza ao se apoiar nos movimentos civis, ainda que apenas incipientes no começo da década em questão, é verdade, para a transformar em uma alegoria frágil e forçada do feminismo que ganharia força anos depois. Jenny permanece, acima de tudo, uma jovem adolescente, com suas limitações e pequenas possibilidades de escolha e de mudanças. Ainda que desafiadora dos “bons costumes” da época, a personagem sobrevive porque humana; e porque humana, limitada e peculiar, ganha força dramática e amplia os horizontes de identificação com o espectador.

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Ao contrário da protagonista de “Preciosa”, uma perdedora mórbida em potencial que luta para tornar menos pior sua vida já trágica, representando o ideal moralista e maniqueísta do “self-made man”, Jenny sucumbe em virtude de seus próprios desejos e fragilidades, sendo responsável, em parte, por seu próprio sofrimento. Ela, assim, usa as ferramentas que tem para sair da cova que criou para si, mas com uma visão de maior amplitude, reavaliando forçosamente antigos conceitos dentro de sua nova realidade.
Em tempos em que, surpreendentemente, a educação superior no Brasil, para muitos, ainda pode ter a mesma conotação daquela para a protagonista do filme, vale ressaltar que, caso o tema central proposto fosse a escolha ou não por uma educação de nível superior, o uso da educação como forma de melhorar de vida (tal como em “Preciosa”) ou então questionar o status quo, o filme correria o risco de se cair por completo no lugar comum. Não se trata, tampouco, de um filme sobre a condição da mulher nos anos 60. Antes disso, que serve apenas como pano de fundo para algo maior, “Educação” parece articular seus quase-clichês e sua linha narrativa não tão original para evidenciar que a maturidade não vem com a experiência da “vida de adulto”. Ela vem, sobretudo, quando aprendermos a pensar e escolher por conta própria no contexto de nossas vidas, lidando com as possibilidades e limitações constantemente cambiantes. A despeito dos acertos, são as piores derrotas que nos ensinam não sobre a vida, jamais um conceito absoluto passível de aprendizado. Aprendemos, no fundo, sobre nós mesmos e àqueles ao nosso redor, sobre as nossas vivências, continuamente reavaliadas de acordo com as mudanças em nossas perspectivas. E errar, assim, pode ser uma educação tão ou mais enriquecedora do que aquela, em especial quando engessada, oferecida nas salas de aula.

Cotação: 7,0

Título original:an-education
Gênero:Drama
Duração:01 hs 35 min
Ano de lançamento:
2009
Distribuidora:Sony Pictures Classics
Direção: Lone Scherfig
Roteiro:Nick Hornby, baseado nas memórias de Lynn Barber
Elenco: Rosamund Pike, Cara Seymour, Olivia Williams, Sally Hawkins, Matthew Beard, Dominic Cooper, Peter Sarsgaard , Carey Mulligan, Emma Thompson, Alfred Molina
Produção:Finola Dwyer e Amanda Posey
Fotografia:
John de Borman
Direção de arte:Ben Smith
Figurino:Odile Dicks-Mireaux
Edição:Barney Pilling
Efeitos especiais:Baseblack

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