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Crítica | O Discurso do Rei

Crítica | O Discurso do Rei

Crítica

Emoções, traições, disputas pelo poder. Seja qual for o motivo, desde o início dos grandes reinados as famílias reais são aclamadas por suas nações e têm os detalhes de sua vida privada explorados pela mídia; detalhes que posteriormente contam com grandes chances de tornarem-se esplêndidas produções através do olhar da indústria cinematográfica. Desta forma não surpreende que um dos discursos mais importantes da história, sobretudo ao povo britânico, fosse transformado no recente filme O DISCURSO DO REI, que estreia na próxima semana, provando que sequer a indústria ou o espectador cansam-se de buscar inspiração e entretenimento em intrigas reais. Produção surpreendente que transporta-nos aos bastidores de um marco histórico visando uma situação comum, este grande indicado ao Oscar, concorrente em 12 categorias (incluindo as de melhor filme, direção, ator, ator coadjuvante e atriz coadjuvante), retrata a luta do rei George VI para superar um grande problema de comunicação: a gagueira.

Tudo inicia-se no ano de 1925, quando George V pede ao seu filho caçula, Duque de York, que realize o discurso de encerramento da tradicional Exibição do Império, em Wembley, Londres. Com equipamentos à postos e uma multidão à espera das palavras daquele que está como segundo herdeiro na linhagem real, ocorre um desastre: após gaguejar e conseguir vocalizar algumas poucas palavras distinguíveis, é comprovado que um dos filhos do Rei é incapaz de comunicar-se decentemente com seus súditos ou qualquer pessoa que não faça parte de seu ambiente familiar. Devido a este grande empecilho, que atinge não somente à todos que cercam o Duque, mas também a sua precária autoestima, o mesmo e sua esposa dão continuidade à uma busca entre os melhores profissionais por alguma solução para este problema. Dentre os doutores e médicos consultados encontra-se Lionel Logue, um sujeito com métodos nada ortodoxos que se esforça para, de formas alternativas, resolver ou ao menos amenizar o problema de fala do Duque.
De uma forma diferenciada, temos em mãos a intimidade da família real inglesa, principalmente de um elo específico desta, desnudada de maneira simples e eficaz, de maneira a nos despertar mais que uma empatia ou compaixão, mas uma identificação para com o protagonista e aqueles com quem convive, que são obrigados a compreender e auxiliar nos obstáculos pendentes a este. Ocorre uma desmistificação da posição dos governantes, o que permite-nos perceber que aquele que é chamado por todos de “Vossa Alteza”, apresenta-se frágil e nutre um sentimento de incapacidade perante as dificuldades, como qualquer outro ser humano. Esse é um dos pontos que, emocionalmente, equilibra a narrativa: a partir do momento em que passamos a enxergar Bertie (o Duque) como alguém vulnerável e tomamos consciência de suas obrigações e as dificuldades consequentes nestas devido seu problema de fala, compreendemos a amplitude da situação e a pressão exercida sobre o mesmo.
A análise da humanidade, e vulnerabilidade, de Bertie também é perceptivelmente concreta através das cenas em que acompanhamos suas visitas ao consultório de Logue: sua descrença e a instabilidade de seu humor nos mostram o quão cansado o mesmo está de ter que lidar com aquela situação, sendo humilhado por seus familiares e não obtendo quaisquer melhoras nos diversos tratamentos pelos quais passou. Nesta ocasião, percebemos a real intenção de Logue em não somente estreitar sua relação com alguém da Alta Realeza, mas auxiliar na resolução e, principalmente, na reconquista da autoconfiança perdida pelo Duque. Tais momentos, durante os exercícios propostos e a participação da Duquesa em muitos deles, rendem à produção momentos imersos em ironias, o que remete ao filme características humorísticas, e desmancha a tensão imposta pelo drama do protagonista.
Outro ponto da projeção que vale à pena ser ressaltado é a perspicácia com que a necessidade de uma boa comunicação é tratada. O caráter comunicativo do ser humano neste filme nos rende a reflexão da importância dada à fala e seus atributos não somente à alguém que detém o poder, mas a qualquer um que deseja expor suas ideias e trabalhar em pontos precisos na formação de opinião e caráter de um terceiro, algo representado por uma grandiosa cena na qual o Duque assiste com sua família à um discurso de Hitler, e ao ser indagado sobre o que o ditador está dizendo, responde que não sabe, embora perceba que o mesmo passa força e comprometimento com sua causa. Isso gera na personagem, uma força para lutar contra sua dificuldade maior, e prova que a capacidade de comunicar-se é essencial em qualquer função exercida, sejam seus ideais e a mensagem passada corretos ou não. Esses momentos de lucidez, causam intrigas e cedem ao filme a possibilidade de gerar no espectador o suspense, a curiosidade quanto às consequências do tratamento e seus resultados na formação e influência de Bertie como George VI.

Colin Firth sempre buscou aprimorar seu método de atuação, e a forma como trabalha na busca por adquirir características com intenção de tornar críveis suas personagens espelha, principalmente no trabalho realizado para retratar Bertie, excepcional triunfo. A forma como as palavras travam automaticamente ao serem reproduzidas, os olhares nervosos e a insegurança transpassados pelo ator, são motivos claros das contínuas indicações que Firth vem colecionando aos mais variados prêmios durante sua carreira: seu comprometimento e talento são ilustres. Helena Bonham Carter brilha e inunda-nos com seu carisma e facilidade em encarnar a dedicada e preocupada esposa do Duque, impressionando com sua versatilidade e mostrando-nos que não está ‘presa’ à personagens transgressores.
Outro coadjuvante que, neste caso específico, rouba a cena é Geoffrey Rush. Seu personagem chega a ser caricato mas de uma forma complexa, digna de admiração. Não é por menos que este conta com o título de preferido na categoria de ator coadjuvante, afinal, é através do envolvimento entre sua personagem e a de Firth que percebemos o caráter humano e a dedicação no relacionamento do Duque com um civil, Logue, que foi perpetuado e intensificado pela quebra conjunta de uma barreira.

A publicidade em torno de O DISCURSO DO REI e suas múltiplas indicações não são frutos do acaso, mas sim de belas atuações, uma história comovente e interessante, além de muita dedicação. Fugindo aos estereótipos dos filmes da realeza, este não trata das fortunas e luxos, mas sim de exemplos das situações constrangedoras que estes nobres são obrigados a enfrentar, como qualquer ser humano. Nivelando a situação à de qualquer defeito e problema do espectador, ele cativa, emociona e nutre um sentimento que se iguala à satisfação. É possível compreender porque a produção agradou à todos, inclusive à Rainha.

Pôster

Sinopse

Desde os 4 anos, George (Colin Firth) é gago. Este é um sério problema para um integrante da realiza britânica, que frequentemente precisa fazer discursos. George procurou diversos médicos, mas nenhum deles trouxe resultados eficazes. Quando sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter), o leva até Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta de fala de método pouco convencional, George está desesperançoso. Lionel se coloca de igual para igual com George e atua também como seu psicólogo, de forma a tornar-se seu amigo. Seus exercícios e métodos fazem com que George adquira autoconfiança para cumprir o maior de seus desafios: assumir a coroa, após a abdicação de seu irmão David (Guy Pearce).

Ficha técnica

  Gênero: Drama
  Direção: Tom Hooper
  Roteiro: David Seidler
  Produção: Emile Sherman
  Fotografia: Danny Cohen
  Trilha Sonora: Alexandre Desplat
  Duração: 118 min.
  Ano: 2010
  País: Austrália / Reino Unido
  Cor: Colorido
  Estreia: 11/02/2011 (Brasil)
  Distribuidora: Paris Filmes
  Estúdio: The Weinstein Company
  Classificação: 12 anos

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