Cinema

Crítica | Melancolia

Crítica | Melancolia

Por Felipe Bastos

Crítica

Com as diferentes ‘histórias de vida’, distintas personalidades, livre arbítrio, ética e derivados, cada ser humano pensante exerce o direito da liberdade de expressão e idealização de maneiras diferentes. Isso causa conflitos e divergências, mas as contrárias opiniões também abrem caminho para discussões saudáveis, conscientizações e aprendizados que não aconteceriam se todos nós fossemos completamente iguais. O caso é que, com a possibilidade de sermos excepcionais em algo, no pensar e sentir, surgem as fragilidades de nosso psicológico, portas que possibilitam a origem de estados psíquicos e condições que, muitas vezes, permanecem como incógnitas. Um exemplo desses estados é a melancolia. Freud, em seu clássico texto Luto e Melancolia, já previa uma certa dificuldade para definir esta condição emocional que se assemelha ao luto, mas sem o contexto da perda. O problema na identificação da melancolia é que ela se manifesta de diversas formas, dificultando seu enquadramento em um bloco único. Por esse, entre outros motivos, a nova produção dirigida e escrita por Lars von Trier não poderia ter outro nome senão a desta disfunção emocional.


Como uma das melhores obras do ambicioso diretor Dinamarquês – ficando atrás apenas de seu antecessor, Anticristo (2009) – o filme mostra desde a felicidade, com pequenos desvios e falhas, até o árduo estado de desânimo e desinteresse pelas coisas do mundo em dois distintos episódios da história de duas irmãs, Justine e Claire. Assim como a melancolia definida por psicólogos, o filme não funciona em um único bloco, sendo dividido em duas partes que assemelham-se à curtas-metragens de mesmo elenco tamanha a divergência entre ambas: o que a princípio remete-nos a uma constrangedora reunião familiar realizada devido a comemoração do casamento de Justine, passando pelas tênues linhas entre o vergonhoso e o rotineiro dos comportamentos humanos, finaliza-se com nada mais, nada menos, que o fim do mundo através da visão de von Trier.

No primeiro ato, durante a festa de casamento de Justine, somos apresentados a inúmeras personagens com uma preocupação comum meio a comportamentos diferenciados. Enquanto todos mantém a preocupação aparente com o lado emocional da noiva, através dos eternos questionamos quanto à sua felicidade, os noivos são apresentados de forma quase cômica, inebriados pela alegria do casamento fadado ao fracasso devido a conduta negligente de Justine – demonstrada através de suas ‘fugas’ ao contato com o noivo – e a falta de percepção, tato de seu recente marido perante seu comportamento. Outras importantes personagens que conhecemos são John, um homem com amplo conhecimento na área Astronômica que usa seu grande poder aquisitivo como meio de controlar e chantagear os demais, submetendo-os a comportamentos que ele considera adequado – exemplo claro disso é o ‘trato’ que o mesmo propõe à cunhada e sua relação com a sogra; e sua esposa Claire, irmã de Justine e ‘apoio’ emotivo da protagonista nesta primeira parte. Ambos coordenam, além da realização do ritual a concretização deste primeiro momento e o gancho necessário para a segunda parte da trama, além de serem alguns dos poucos familiares que, aparentemente, apresentam um comportamento ‘normal’, visto que mesmo os pais da noiva parecem sofrer de algum distúrbio: a mãe e sua abominação à rituais e o pai e sua incapacidade de enxergar qualquer mulher como algo além de um objeto.

Na segunda parte da trama, após a sutil alteração de ânimos da primeira, nos deparamos com uma diferença no comportamento da protagonista e seus familiares, além da aproximação do planeta Melancolia e suas possíveis interferências na Terra. Embora pouco conhecida, a inspiração na utilização de um planeta como transformador de humores e comportamentos tem origem na teoria desenvolvida por Hipócrates sobre os astros e sua repercussão nos humanos devido a quatro humores do corpo – sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra – onde o mesmo detectava a presença de um desequilíbrio no baço, influenciado por Saturno, associado por muitos até hoje, à disfunção emocional que cede título à produção.

Se no primeiro ato o equilíbrio era ameaçado, neste segundo ele encontra-se ausente. A serenidade de Claire dá espaço à ansiedade extrema provocada por seu temor perante a presença e ameaça da rota do Melancolia em direção à Terra, apelidada de “Dança da Morte“; tensão ridicularizada por seu marido que, embora pareça preocupado com o estado da esposa, experimenta um misto de fascínio, calma e devoção àquela presença ‘ameaçadora’ – estado que posteriormente é abalado revelando o extremo egoísmo da personagem. Em resposta a seu comportamento inconstante e mecânico em sua apresentação, Justine age através de extremos nessa segunda metade, onde vai da inicial calamidade e depressão máxima rumo à uma solitária conformação com o destino, julgando ser esse fim necessário – “A vida na terra é má”.

A beleza da sintonia entre a movimentação de câmera, efeitos visuais, sonoros, e o interior das personagens continua presente, sendo marca registrada do diretor. As movimentações bruscas e tumultuadas devido a utilização da handcam no período centrado na festividade, com suas tensões e constrangimentos, muda drasticamente para um foco constante, expressivo e contínuo, constituído por longas sequências e cortes menos bruscos acompanhando sensivelmente o ânimo relaxado da protagonista no decorrer do segundo ato. É inteligentíssima a forma com que o espectador é levado da dor, angústia e frustração para a calma, conforto e conformidade.

Obviamente, muito disso deve-se não somente ao talento na direção e roteiro de Lars von Trier, mas as atuações analíticas e convincentes de Kirsten Dunst, no melhor papel de sua carreira, seguido com tal espanto apenas pelo intrigante Virgens Suicidas; Kiefer Sutherland, e suas contidas expressões; e claro Charlotte Gainsbourg, que apaga completamente o brilho dos companheiros de set envolvendo-nos de forma surreal com sua genialidade sensível e expressiva – apreciada por Lars, visto que este é o segundo filme dos dois em três anos.

Dessa forma, dando continuidade ao proposto pelo prólogo inerte e metafórico que, além de comunicar-se claramente com o final do filme, envolve o privado das personagens através de fortes e impactantes cenas, todo o decorrer de Melancolia mantém aquele que se propõe a apreciá-lo reflexivo durante sua exibição, provando que todas as reações imaginadas na concepção de uma obra de qualidade refletem exatamente como o esperado naqueles que, assumindo a posição de ser humano, apresentam suas fragilidades e identificam-se mesmo com os piores e mais íntimos sentimentos de impotência perante um universo grandioso que tende a, cada novo dia, provar-nos que somos apenas uma mísera parte de sua totalidade.

Pôster

Sinopse

Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração.

Ficha técnica

  Gênero: Drama
  Direção: Lars von Trier
  Roteiro: Lars von Trier
  Produção: Louise Vesth, Meta Louise Foldager
  Fotografia: Manuel Alberto Claro
  Duração: 136 min.
  Ano: 2011
  País: Alemanha / Dinamarca / França / Suécia
  Cor: Colorido
  Estreia: 05/08/2011 (Brasil)
  Distribuidora: Califórnia Filmes
  Estúdio: arte France Cinéma / Canal+
  Classificação: 14 anos

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