Ficha do Filme | Fita Branca

De partida, o longa leva o espectador a duvidar do “professor da escola”, que narra uma série de crimes misteriosos que acometem o vilarejo a partir da colagem do relato de vários testemunhos. Um atentado que afasta o único médico da cidade dá largada para outros três crimes e numerosos atos de crueldade. Sejam eles formas de punição, inveja, vingança ou repressão, são cometidos não só pelo(s) criminoso(s), mas também por pais, filhos e irmãos, amantes, colegas de escola, pela polícia, por camponeses revoltados contra o barão do vilarejo, e também contra si mesmos e animais de estimação.
Haneke, no entanto, tenta ser esperto ao usar as contradições entre a narração e aquilo que as imagens nos contam. É bem verdade que o professor nos alerta que, além de não saber se o que nos é narrado é totalmente verídico, que as algumas das perguntas suscitadas permanecem sem resposta e que o que presenciaremos a seguir pode, apenas como possibilidade, explicar os desdobramentos da Alemanha posterior. Formalmente, no entanto, as imagens e os diálogos, que tentam nos dar apenas indícios e construir hipóteses, parecem cheias de teses prontas em potencial. Nada é dito ao espectador de forma ideológica, mas apenas em razão da própria doutrinação, em si, ser alvo de críticas. O que acontece, ao contrário, é que o diretor faz uso constante de indícios que não se comprovam, nos dando informações que constantemente se contradizem, tal como as suspeitas dos crimes que recaem sobre determinado grupo de personagens. No outros casos de violência, também, em diferentes combinações, há uma seleção de imagens que arriscam explicar motivações, que nos mostram os atos em si, ou que nos revelam as suas conseqüências. Uma tentativa, talvez, de revestir um pout-pourri de hipóteses pouco conclusivas, já testadas por intelectuais e estudiosos, como sofisticação intelectual através de uma estrutura complexa que aponta intencionalmente para a opacidade.

Em contraste à natureza pura, que constitui as mais belas imagens do filme, diversas dessas teses prontas parecem presentes: de que a perversidade humana é irremediável, de que abuso ideológico e de poder resulta em germes de mais violência (em especial nas crianças, serem impressionáveis), de que o ser humano nasce puro e é corrompido pela sociedade, ou de que a família (e a autoridade), microcosmo do político, possa ser a grande raiz das piores atrocidades cometidas em escala global. Como potencial explicação para o Nazismo, uma “redução” dos sentidos possíveis do filme segundo o próprio autor, o subtítulo do filme, “uma história de crianças alemãs”, no entanto, toma um sentido bem claro. Mais um ponto que poderia ser a favor de “A Fita Branca” é que não se defende uma tese única, muito menos uma que seja completamente rasa, sem sustentação, ou maniqueísta.

Mas o diretor tenta ser esperto, mais uma vez, para se abster de explicações sobre sua mais recente obra. Defendendo a arte aberta no que diz aos significados e questionamentos levantados, a estratégia parece, no fim das contas, uma forma de encobrir e tornar confusas as idéias centrais, que de partida nem tão originais ou elaboradas são, através de uma narrativa enigmática que nos deixa perplexos. A construção intrincada parece ter o intuito de tornar tais hipóteses e o filme tão complexos quanto. Tudo que se alcança, contudo, é a ideologia velada, ainda que humanista e largamente aceita, já que o filme não as assume abertamente. Pior do que a doutrinação explícita, de identificação e combate mais fáceis, pode ser aquela que está nas entrelinhas, travestida de convite à reflexão. As obras, no fim das contas, falam por si. “A Fita Branca” diz de forma eloqüente que a única coisa que realmente parece ficar em aberto, longe de ser a discussão sobre “as raízes do mal”, é tudo aquilo que menos importa e que mais parece frustrar os espectadores: o fim.

O austríaco, assim, parece patinar em sua proposta conceitual. Ele tem uma vitória retumbante em levantar sobrancelhas, polêmicas e discussões. E se há sofisticação formal e sutileza no filme, os louros devem ser atribuídos. Haneke, é certo, filma com elegância de movimentos que parecem fazer a câmera dançar ao redor de seus personagens. Seus planos, embora destituídos de uma tensão mais usual, se tornam repletos de suspense quando em conjunto. Mas seu tombo ainda assim é retumbante quando se coloca o resultado alcançado frente ao tamanho de sua pretensão.

Sinopse

1913. Em um vilarejo no norte da Alemanha vivem as crianças e adolescentes de um coral, dirigido por um professor primário (Christian Friedel). O estranho acidente com o médico (Rainer Bock), cujo cavalo tropeça em um arame afiado, faz com que uma busca pelo responsável seja realizada. Logo outros estranhos eventos ocorrem, levantando um clima de desconfiança geral..

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Trailer | A Fita Branca

Curiosidades

  • A ideia inicial de Michael Haneke era fazer de A Fita Branca uma minisérie para a TV, em três capítulos.
  • Ulrich Mühe seria o Pastor, mas faleceu antes do início das filmagens.
  • A seleção do elenco durou seis meses e cerca de 7 mil crianças foram testadas.

Prêmios

OSCAR – 2010

  • Indicações
    Melhor Filme Estrangeiro
    Melhor Fotografia

GLOBO DE OURO – 2010

  • Ganhou
    Melhor Filme Estrangeiro

BAFTA – 2010

  • Indicação
    Melhor Filme Estrangeiro

GOYA – 2010

  • Indicação
    Melhor Filme Europeu

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO – 2011

  • Indicação
    Melhor Filme Estrangeiro

FESTIVAL DE CANNES – 2009

  • Ganhou
    Palma de Ouro
    Prêmio FIPRESCI

FESTIVAL DE SAN SEBASTIÁN – 2009

  • Ganhou
    Prêmio FIPRESCI

Bilheteria

  • Orçamento: €12,000,000 (estimado)
  • Abertura EUA: $59,848 mil
  • Total EUA: $2,222,647 milhões
  • Total no mundo: –

Ficha Técnica

 

    • Título original: Das Weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte
    • Nacionalidades: França, Itália, Áustria, Alemanha
    • Gênero: Drama
    • Ano de produção: 2009
    • Estréia: 12 de fevereiro de 2010 (Brasil)
    • Duração: 2h 24min
    • Classificação: 16 anos
    • Direção: Michael Haneke
    • Roteiro: Michael Haneke
    • Produção: Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Stefano Massenzi, Margaret Ménégoz, Ulli Neumann, Andrea Occhipinti
    • Direção de fotografia: Christian Berger
    • Edição: Monika Willi
    • Design de produção: Christoph Kanter
    • Direção de arte: Anja Müller
    • Decoração de set: Heike Wolf
    • Figurino: Moidele Bickel
    • Estúdios: X-Filme Creative Pool, Wega Film, Les Films du Losange, Lucky Red, ARD Degeto Film, Canal+
    • Distribuição: Imovision
    • Nota do Público
      Crítica | A Fita Branca
      4.3 (85%) 4 votes

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